sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sobre o leite e a vaca

Fico chocada cada vez que leio nos jornais alguma medida que está sendo tomada pelo governo federal para fazer frente à crise econômica. Não que o governo não esteja agindo dentro do pretendido, mas essa avalanche toda está atingindo o Brasil porque no tempo das vacas gordas, não se dividem a carne nem o leite. No tempo das vacas magras apela-se para a grande vaca leiteira - o governo brasileiro.
Nos EUA, país que, dizem, provocou toda essa crise, qualquer americano de classe média investe na bolsa de valores. Isso porque recebe um bom salário que lhe permite fazer esse investimento (falo do norte-americano sério, não daqueles irresponsáveis que hipotecam as suas casas para investir em Wall Street), capitalizando as empresas, engordando a economia do país. No Brasil, depois de quase seis anos em que as empresas tiveram altos lucros com a valorização de suas ações, com o aumento das exportações e das vendas dentro do mercado interno, veio a primeira grande crise financeira do governo Lula e aí, o que acontece? As empresas recorrem ao governo, forçam-no a ajudá-las. E o governo, apesar do discurso contrário, ajuda, seja através de bancos ou não, mas ajuda.
Ora, a queda na bolsa de valores brasileiras talvez não tivesse sido tão acentuada se o brasileiro, ele mesmo, como qualquer americano de classe média, tivesse condições de investir. É verdade que, nos últimos anos, dado aos bons lucros deste tipo de investimento, muitos se arriscaram a isso. Porém o dinheiro investido não foi o suficiente para garantir o preço das ações. Na hora em que os investidores estrangeiros, que vieram ao país apenas para especular, tiveram que tirar os seus investimentos para cobrir as perdas no exterior, a bolsa brasileira desabou.
Subiu muito, em face à especulação, desabou porque os investidores estrangeiros não estão preocupados com a nação brasileira. Ora, as empresas então recorrem ao governo brasileiro. E o que fizeram com os lucros altíssimos expostos, para quem quiser acessar, em balancetes divulgados na internete? Acaso preocuparam-se em aumentar o rendimentos de seus funcionários, em pagar bons dividendos aos seus acionistas, em diversificar as suas atividades, em promover (como se faz nos países desenvolvidos) a educação, através de doações a escolas e universidades?
Não, nada disso, os empresários só se preocuparam em engordar o seu capital, não em desenvolver o país, porque eles acham que desenvolver o país é responsabilidade única do governo. Apostaram no mercado externo e, na hora em que o mercado externo sofre um declínio, não há como recuperar as perdas no mercado interno.
Esse é um país de aproveitadores, do desrespeito ao consumidor, do lucro incessante e não distribuido e, também, da especulação (não em níveis gritantes como aconteceu agora nos EUA). E até o governo quer lucrar com os recursos advindos do trabalho dos brasileiros. O presidente Lula disse que o Brasil sofreria pouco com a crise pois havia aumentado o nível de exportação para outros países e diminuído para os EUA. Só não falou que boa parte dos recursos do Banco Central são aplicados na dívida americana. O Brasil, como já disse em outro texto, é o quarto maior credor dos EUA.
Ou seja, ao invés de aplicar os recursos dentro do Brasil, injetando-os para incrementar a nossa economia e gerar lucros não com a especulação, mas com o trabalho, o Banco Central estava investindo o dinheiro lá fora, para obter lucros, para também aumentar o seu capital. Sinceramente, acho que perdemos o bonde da história.

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