terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O fim do fim

Desde que a música axé começou que dizem que ela acabou. Já nem consigo mais contar o número de vezes em que ouvi alguém dizer que o axé havia acabado. Novamente alguém o declara: o produtor musical, ex-músico, ex-dono do bloco EVA (ou será que continua?), e agora escritor, Jonga Cunha.
Não li o livro de Jonga, recém-lançado, que fala sobre a sua trajetória no campo da música baiana, comento as declarações feitas a um site de jornal de Salvador. Desde que surgiu, nos anos 80, ninguém soube dizer muito bem o que era o axé (termo cunhado, perjorativamente, pelo roqueiro Marcelo Nova - axé music). O fato é que o termo pegou, e toda canção trio-eletrizada, era assim denominada.
Não se pode dizer que o axé seja um estilo; existem muitos estilos dentro do axé. Porém é uma música característica, com uma finalidade bem definida: o carnaval. Profetizar-lhe um final é a mesma coisa que acabar o carnaval, a não ser que o "entreguemos", como sempre fizemos com todas as nossas riquezas, aos estrangeiros, que já estão tomando o carnaval com irritantes trios "technos".
Como o baiano não é igual ao pernambucano - quando sentiu que o trio elétrico ia destruir o seu frevo foi logo restringindo o avanço -, estamos permitindo que venham artistas de todo o mundo, que nada entendem da festa mais popular do planeta, ocupar o palco dos baianos. Mesmo assim, com toda essa invasão, tal qual os portugueses contra franceses e holandeses, estamos resistindo.
Parece que alguns baianos têm vergonha da autêntica música produzida na Bahia, aquela que abriu espaço nas rádios locais e nacionais, transformou uma programação, mais de 60% internacional, em mais de 60% nacional; fez shows gigantescos; lançou artistas em todo o mundo e até fez o trio elétrico chegar aos Estados Unidos e Europa, e empregou tanta gente!
Esses que profetizam o fim da música axé certamente acham que o rock deveria ter parado nos Beatles, ou o blues em Charley Patton. Quem ouve o rock de hoje, com seus diversos segmentos, nem vislumbra os traços da sua raiz. Jonga diz que a música baiana é pop, é "world", algo que também ninguém sabe definir muito bem - pop, "world"...
O samba, o chorinho, a bossa nova, axé, frevo (não vejo pernambucano profetizando o fim do frevo) são ritmos genuinamente brasileiros, vão ficar sempre em nossa música. O estranho é o produtor dar uma declaração desta no momento em que a artista Cláudia Leite, legítima representante da música axé, é convidada para cantar na festa de ano novo paulista e pede, como cachê (informa um site), uma quantia de sete dígitos. Nossa, que epílogo caro!
Se houve um fim, foi na hegemonia da música axé, por que, tal qual uma praga que destrói toda uma lavoura, ela chegou a sufocar todo e qualquer outro movimento musical que surgisse na Bahia. A Bahia tornou-se eclética, dando espaço a artistas como Mariene de Castro e bandas como Negra Cor (que tem lá uma pontinha no axé). Aqui pode não se nascer apenas axé, mas que se nasce, nasce.

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