Clima de romance no ar
Guel Arraes conseguiu abrir uma janela - não, não - uma porta para o cinema nacional. "Romance", seu novo filme, é de uma beleza extraordinária, com diálogos inteligentes, roteiro que foge aos clichês, e um elenco sensacional, encabeçado por um artista que, a cada dia, se supera: Wagner Moura (Moura é, praticamente, um Gláuber Rocha diante das telas).
O filme recria, recria e recria o clássico "Tristão e Isolda". Tem lindas cenas de amor e nos faz sair desse universo de filmes cada dia mais violentos, cheios de socos e pontapés, de gente atirando em gente, bombas explodindo, pessoas sendo presas. "Romance" é novo, surpreendente, tem um roteiro impecável e um final feliz (o cinema nacional não prima por ter bons finais).
"Romance" tem realidade sim, mas a ficção se sobrepõe a ela, como deve ser na arte. Não é mais possível que paguemos para nos divertir e tenhamos que assistir ao dia-a-dia, às vezes um dia-a-dia mais violento do que na própria realidade. Cinema é magia, é "Romance".
Guel, com a ajuda de Jorge Furtado (que também assina o roteiro) e de um elenco muito afinado, com Andréa Beltrão, José Wilker, Marco Nanini, Letícia Sabatella, Wladimir Brichta, além de Moura, mostra um novo caminho para o cinema, não apenas nacional, mas internacional também. Os diretores brasileiros, que eram um sopro de esperança diante da mesmice em que se tornou a sétima arte (a cada dia menos arte), foram em busca do sucesso, do lucro fácil, dos prêmios internacionais, e acabaram por criar um cinema tão ou mais violento que o de Hollywood, cujo padrão acabou norteando a cinematografia de quase todo o mundo.
"Romance" é um filme brasileiro, mas poderia ser francês, italiano, grego. Por que fala de um tema universal. Não apenas de um tema de uma cultura específica, como os filmes brasileiros passaram a falar. É uma obra aberta, como deve ser a arte. É dramático e, ao mesmo tempo, divertido. Tem, tem alguns clichezinhos, um certo merchandising da própria TV, mas isso "passa batido" diante da beleza da obra.
Nesses tempos de Fernando Meirelles, Walter Salles, José Padilha, se fosse um páreo de cavalos, eu apostaria em Guel.

2 Comentários:
Eu não sei se apostaria em Guel. Não vi Romance ainda, mas é sempre uma caixinha de surpresas. Ele já fez coisas muito boas, mas também já fez muito filme fraco e extremamente comercial. Tem pontos muitos positivos: uma estrutura de roteiro sempre inovadora e um humor sempre bem construído.
Já Fernando Meirelles se supera a cada filme. Talvez técnico demais, mas que técnica primorosa! Ele já conseguiu criar um estilo dentro da maneira de filmar: ângulos, edição, sequêncialidade...Tudo fica muito limpo e claro. Aprovo.
Sobre os outros citados não acho que vale a pena falar muito. Exceto Glauber, claro. Mas esse não precisa, porque já é hors concour.
Cainã, que bom encontrar você de novo em nosso blog! Como diretor, Guel fez apenas quatro filmes: "O auto da compadecida", "Caramuru - a invenção do Brasil", "Lisbela e o Prisioneiro" e, agora, "Romance". Acho que quando diz que ele fez coisas comerciais, deve estar se referindo aos filmes como roteirista, entre eles "A Grande Família - o filme". Bem, gosto muito dos outros diretores que citei, mesmo Padilha ("Tropa de Elite"), mas Guel conseguiu o que nenhum deles, nem mesmo o próprio Guel, havia conseguido: fazer um filme brasileiro que não tratasse da nossa cultura, que fosse universal. Por isso, aposto em seu talento, porque, mesmo nos tempos do cinema novo, o Brasil sempre teve a marca de Brasil em seus filmes. Não sou contra arte regionalista, mas prefiro quando é universal.
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