domingo, 23 de novembro de 2008

Nada além dos 60%

Perguntei a uma vestibulanda como havia sido o seu desempenho no vestibular da UFBA, este ano. Ela me respondeu, escondendo a modéstia, que "razoável". Perguntei quanto, em percentual, havia feito. Disse-me: 52%. Eu me assustei, achei que ela havia ido muito razoavelmente mesmo. Ela contestou: ninguém faz mais que 60%! O que está acontecendo com a educação neste país? Décadas atrás, se um vestibulando não fazia acima de 70%, não ia para lugar algum, agora ninguém faz mais de 60%? Como assim? São os professores que não sabem mais ensinar ou os alunos que não conseguem mais aprender?
Fazer 60% numa avaliação que vale 100% é mal, muito mal, e ninguém consegue fazer mais que esse "mal, muito mal"? No Enem deste ano, a avaliação foi ainda pior, os estudantes não passaram de 40%, os da Bahia ficaram abaixo deste patamar, com pouco mais de 36%. Enquanto o desempenho dos estudantes cai, progressivamente, o congresso amplia e ratifica o sistema de cotas.
Não se trata de ser contra ou a favor ao sistema de cotas, trata-se de que toda a educação no Brasil tem que ser reavaliada, repensada, reestudada (sem trocadilho). O que adianta se colocar profissionais no mercado que em todos os seus ensinos fundamental e médio não conseguiram apreender mais de 60% do que se ensinou? Como esse profissional pode desempenhar bem as suas funções? E como pode, além disso, criar, pesquisar, descobrir qualquer tipo de tecnologia em seu campo de trabalho se não sabe, praticamente, o básico?
Quem vai a um médico, a um dentista, procura um advogado, já percebe a queda de qualidade no atendimento. Imagine o que vai acontecer daqui há uns 10 anos, quando boa parte dos profissionais for composta por esses estudantes que não vão além dos 60% no vestibular, ou 40% no Enem, ou que foram beneficiados ao entrar na universidade pública pelo sistema de cotas? São esses profissionais que vão formar outros em seu campo de trabalho!
E ainda sonhamos com um Brasil novo? Não há nenhum país que tenha se desenvolvido sem investir em educação. O exemplo mais recente, e mais em moda, é o da China, onde um aluno leva cinco anos para ser alfabetizado. É, lá se fica cinco anos em alfabetização; aqui, um aluno de escola pública não pode nem ser reprovado um ano, porque criaram um infeliz sistema de progressão automática, em que o estudante é aprovado, tenha ou não aprendido alguma coisa, tenha ou não tirado notas suficientes para a aprovação.
Os "gênios" que criaram esse sistema descobriram que a reprovação aumenta a evasão escolar. Ou seja, estamos sempre remendando os problemas. Não melhoramos o ensino em escolas públicas, reservamos cotas nas universidades para alunos oriundos dessas escolas; não procuramos entender e solucionar o problema da evasão escolar, simplesmente acabamos com a reprovação.
Os últimos governos só se preocuparam em resolver a questão econômica, relegaram a educação ao segundo plano (ou quarto, ou quinto). Fico pensando em como vai ser um ministro da economia que não passou dos 60% no vestibular.

2 Comentários:

Às 24 de novembro de 2008 às 05:35 , Blogger Unknown disse...

Ana, os tempos mudaram e vivemos numa contradição.Hoje, com a internet e as bancas de revistas abarrotadas com uma infinidade de publicações para todos os gostos e interesses, sem falar na abundância de livros,a informação está mais disponível que há 20 anos atrás, mas a falta de ambição intelectual dessa nova geração cresceu na mesma proporção.O resultado é esta mediocridade.Quem sabe algumas besteiras como eu, é considerado um gênio!

 
Às 24 de novembro de 2008 às 05:45 , Blogger Cainã Monteiro disse...

O nivel de educação e ensino realmente é lamentável. E olhe que o Enem é uma prova extremamente fácil. Fiz 93%. Já no vestibular da Ufba fiz 55%, e realmente, a maioria não passa de 60. E o problema não está apenas no nivel de ensino, mas no modelo de prova.
É quase uma loteria!!

 

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