domingo, 7 de dezembro de 2008

O sutiã e o bom senso

Há uma lei da economia que diz:"Quando a demanda é maior do que a oferta, os preços aumentam; quando o contrário acontece, os preços caem". Na economia moderna, há algum tempo essa lei foi abandonada. Isso porque inventaram os cartões de crédito, os empréstimos bancários, os financiamentos a longo prazo. O sujeito só não compra se lhe faltar crédito. Pois no último sábado fui a um shopping da cidade comprar uma alça de silicone para um sutiã. Paguei R$ 83,00 há cerca de um ano por um sutiã cuja alça já quebrou. Para sorte minha, a empresa vende a reposição. Ao entrar na loja de peças íntimas, vi um bustiê, um sutiã com um pedaço de pano até a cintura, muito bonitinho. Resolvi, por curiosidade, olhar o preço: R$ 319,00. Para mim essa é a metáfora dessa crise econômica, quando um sutiã com um pedaço de pano passa a custar mais de 300 reais é porque algo de muito desastroso vai acontecer.
Como disse no início, a economia se desvinculou das suas leis básicas. Os preços dos produtos não correspodem mais ao custo de sua fabricação acrescido ao percentual de lucro do vendedor, eles agora são uma composição complexa entre custo, possibilidade de venda e desejo do consumidor. Porque, além de tudo o que já citei, temos hoje a publicidade e, além dela, o marketing. Nem sempre se compra o produto, mas a marca, que geralmente nem é a de melhor qualidade, é a de melhor marketing.
Séculos atrás, nos primórdios do capitalismo, a impressão de dinheiro estava vinculada às reservas em ouro de cada país. Cada moeda impressa tinha o correspondente em ouro. Nenhum país quebrava porque não imprimia mais do que tinha. Na economia moderna não é assim, um país pode quebrar quantas vezes quiser, pois há sempre um banco internacional interessado em lhe dar um empréstimo a juros exorbitantes. Não é preciso lastro para se ter dinheiro.
Há mais de seis meses as bolsas despencam, fábricas demitem (ou fecham), grandes empresas recorrem ao socorro do governo, ou a empréstimos bancários. Tudo isso por necessidade? Não, para se manter a realidade exatamente no nível em que está, com um bustiê custando R$ 319,00. As montadoras poderiam vender todos os seus carros, se baixassem os seus preços. Não baixam, porque aí vai ser difícil colocar novamente os preços no patamar exorbitante atual (nos EUA e na China elas foram pedir socorro). No Brasil, a gasolina não cai como o barril do petróleo, a Petrobrás é que vai à Caixa Econômica pedir empréstimo.
Quando essa crise começou apostava no bom senso dos governos e dos empresários. Que ingenuidade! É porque ainda não havia ido àquela loja do shopping. Bom senso não existe mais no mercado. O que existe é a ganância, a necessidade de um lucro rápido e fácil. Pode ser que essa crise passe com os governos gastando bilhões para manter os mercados nos níveis em que se encontram, o mais provável é que isso não aconteça. O mais provável é que seja preciso a volta do bom senso.
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