sábado, 20 de dezembro de 2008

Aprendendo na praia

Resolvi divagar um pouco, ao ler o blog de um psicanalista italiano radicado no Brasil. Ele fazia um comentário sobre "Vicky Cristina Barcelona", de Woody Allen. Lembrei-me de um filme que assisti na TV, "A Praia", estrelado por Leonardo Di Caprio. Resolvi divagar sobre este filme, inspirada pelas observações do psicanalista, ainda que os dois - "A Praia" e "Vicky" - possam nada ter em comum (ao menos cinematograficamente).
"A Praia" não dignifica a sétima arte. É mal dirigido, mal protagonizado, tem um roteiro questionável, onde uma passagem, apenas, me chamou a atenção. O tema é a tentativa de um grupo de rapazes e moças em viver numa ilha, criando uma comunidade alternativa, sob novos valores, onde a alegria, o prazer e a felicidade permanentes são as metas.
Até um determinado ponto, parece mesmo que eles conseguiriam o impossível. Num mergulho ao mar, um dos habitantes da ilha é atacado por um tubarão. Sobrevive e passa a viver uma lenta agonia, entre a vida e a morte. Os outros habitantes, incomodados por estarem se confrontando com uma situação que põe em xeque o hedonismo, resolvem isolar o habitante em agonia, deixando-o à míngua, longe dos olhos da maioria, ignorado.
Penso na vida. Quando somos colocados no mundo não somos avisados que vamos passar por todo um processo de educação, de limitação. A princípio, qualquer desconforto nos faz chorar. A maioria de nós tem alguém para cuidar desses desconfortos e por fim ao choro. Com o passar dos anos, mesmo com toda a fantasia estimulada na infância, vamos tendo que nos acostumar ao desconforto, adquirindo uma maior consciência da realidade fora do útero. Nem sempre temos alguém para dar cabo das nossas dores.
Mesmo com toda essa percepção, com o sofrimento que passa a fazer parte do cotidiano de qualquer criança, nem sempre se é capaz de abandonar o hedonismo. A maioria da pessoas vive sob a sua hipnose, evitando o sofrimento, isolando aqueles que lhes provocam alguma dor, tentando fazer do mundo um local apenas de prazer. Aqueles que conseguem viver no equilíbrio entre a alegria e a dor, se adaptam; os que tentam, como os habitantes do filme, viver só de alegria, acabam sucumbindo.
Alguns refugiam-se nas drogas. Outros, no sexo desvirtuado - pedófilo, sado-masoquista -, nos amores platônicos, ou mesmo na violência. Um bandido, um marginal, busca em seu ato a ausência de limites, a transgressão, a perpetuação do prazer e do poder.
Não sei o que leva os adultos, os pais das crianças, a fazê-las acreditar na possibilidade de uma felicidade plena. A incentivar tanto as fantasias infantis. O excesso de realismo pode ser extremamente depressivo, o de fantasia, também. Quando vejo pessoas nessa busca desenfreada pelo consumo, pela satisfação de todos os seus desejos, divertindo-se como se ali estivesse no último dia, lembro-me de "A Praia".
Trancamos as nossas portas e janelas, fingimos que a dor é do outro, fazemos das nossas famílias verdadeiros casulos. Quem está fora é como o rapaz atacado pelo tubarão. "A Praia" está no dia-a-dia de qualquer sociedade. Aprender a sofrer talvez seja a maior das dificuldades humanas. Não sei se há outro jeito.

2 Comentários:

Às 22 de dezembro de 2008 às 05:02 , Blogger Cainã Monteiro disse...

O texto que você falou é o do blog de Contardo Calligaris né?
Tinha lido já e gostei muito. Hoje inclusive estou indo assistir "Vicky Cristina Barcelona" novamente.

 
Às 22 de dezembro de 2008 às 05:04 , Blogger Cainã Monteiro disse...

Ah...esqueci de falar. Tem um texto que ele escreveu uma vez sobre o filme "Closer" que também é maravilhoso. Não lembro se te mandei, mas na dúvida, estou enviando para seu e-mail.

 

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