De graça, dessa vez
Já achei bom demais se abrir as portas do Teatro Castro Alves para espetáculos a R$ 1,oo. De graça, era demais da conta, e pensei que ia assistir a uma apresentação ruim de uma orquestra local (tudo bem, baiano é tão talentoso, não precisa também saber tocar peças sinfônicas), na Concha Acústica do TCA. Fui acompanhando uma amiga, não peguei qualquer informação acerca do programa.
Quando vi entrar no palco o pianista e regente baiano, Ricardo Castro, percebi que estaria enganada. Ricardo é um dos mais talentosos pianistas baianos e internacionais. Saiu da Bahia ainda cursando a Faculdade, terminou os estudos em Genebra (Suíça) e construiu uma belíssima carreira internacional, com muitos prêmios, pouco divulgada no Brasil.
Certa vez, quando tocou com a OSBA, regida por Isaac Karabtschevsky, o pianista, ao final da apresentação de muito êxito, me confidenciou: "Não existe orquestra ruim, existe orquestra mal regida". Deve ser mesmo verdade, por que ele conseguiu transformar estudantes com pouco tempo de instrumento (alguns com apenas dois meses) em excelentes instrumentistas. Foi um espetáculo de fazer gosto.
No repertório, composições de russos, alemão (Bethoveen), argentinos e brasileiros. Contrariando toda a tradição de orquestras sinfônicas, os músicos se movimentavam em cena, movendo os corpos, sincronicamente, de um lado para o outro, ao ritmo da melodia. O repertório, principalmente nas composições dos argentinos, foi bastante animado, condizente com a Bahia. A excecução de "Trenzinho Caipira", de Villa-Lobos, teve até cantor. No final, no terceiro "bis", a surpresa: "Tico-tico no fubá", de Zequinha de Abreu. Alguns instrumentistas se levantaram e começaram a sambar.
Não sei se toda essa adaptação sinfônica saiu da mente do maestro. O Secretaria de Cultura, Márcio Meirelles, sempre gostou de inovar. Quando diretor do TCA colocou a OSBA tocando com os Filhos de Gandhy. Pode ter havido um certo incentivo do secretário, ou uma articulação conjunta. O fato é que, apesar de gostar de sinfônicas, pela primeira vez vi uma exibição quebrar totalmente a tradição.
A exibição apresentou o Projeto Neogibá, com estudantes ainda crianças e a Orquestra Sinfônica Juvenil Dois de Julho. São os novos instrumentistas sendo formados, sob a batuta de um grande mestre, Ricardo Castro. Mas é também um projeto social da mais alta importância, que dá um futuro, uma carreira, uma direção a crianças e jovens baianos. O público aplaudiu em pé, com grande entusiasmo. A cultura nunca foi tão accessível ao povo.

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